29 maio, 2008


“Era uma vez um pobre diabo que se tinha enganado de mundo. Existia, como as outras pessoas, no mundo dos jardins públicos, dos cafés, das cidades comerciais, e queria persuadir-se de que vivia noutro sítio por trás da tela dos quadros, com os doges de Tintoreto, com os bons florentinos de Gozzoli, por trás de das páginas dos livros, com Fabrice Del Dongo, e Julien Sorel, por trás dos discos de gramofone, com as longas queixas secas dos conjuntos de Jazz. E um dia, depois de ter feito muito tempo de imbecil, percebeu, abriu os olhos, viu que as cartas estavam mal dadas: estava precisamente num café, diante um copo de cerveja morna. Ficou prostrado, no assento; pensou: Sou um imbecil. E, nesse momento preciso, do outro lado da existência, nesse outro mundo que se pode ver de longe, mas sem nunca lá chegarmos, uma melodiazinha pôs-se a dançar e a cantar: É como eu que se deve ser; é preciso sofrer a compasso.”


A Náusea - Jean Paul Sartre

Sartre foi antes de tudo um filósofo. Praticamente desde que nasceu. A literatura não foi mais do que um veículo. “A Náusea” começou por ser um massudo e extensivo projecto de ensaio metafísico sobre a contingência, sob o título “Melancolia”. Foi Simone de Beauvoir que o convenceu a transformar o livro num romance e a editora que lhe pediu para alterar o título. Pode dizer-se que a fórmula foi um êxito. Com “A Náusea”, Sartre expôs ao mundo as bases da sua filosofia existencialista, que viria a aprofundar em obras ulteriores, como “O Ser e o Nada”, e que o tornaria num dos maiores vultos do século XX.

Mas atenção. “A Náusea” é um livro terrível. Tão bem escrito que se nos impõe para o resto da vida. Ao lê-lo é impossível não sentir a náusea. E nunca mais olharemos para as nossas mãos da mesma maneira.

Por Paulo Moura

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