23 janeiro, 2009

Somos rochas, somos pedras, somos calhaus na rigidez dos ventos. Ao fundo, o som de talheres e das tortuosas vozes mudas. Somos erva, somos Verde, somos terra. E persistem os sons redondos e metálicos e a capacidade de sermos surdos. Ao ritmo destes sons, somos Domingo, somos Fado, somos Sorriso. Pomos dentro do saco, que em breve estará a ser carregado nas nossas costas, os elementos primordiais. Orgulhosos colocamos num altar, toscamente construído, o Bezerro da Lamentação. Aos primeiros acordes, balançamos levemente o nosso corpo com esperança de um novo ritmo, de novos pensamentos, de novos corações. Nesse leve rodopio, surge a sensação de euforia, do caminho certo, da confissão para a inspiração. Pouco vale a valentia, a cobardia ou a terapia. De nada vale ser mestre, discípulo ou autodidacta. O vento não pára assim como o surdo não ouve os sons que perduram. As vestes? Essas são escuras. A pele? Seca e muito dura. Sentem? Não respondo por mim. É melhor responder por ti. Tudo passa, tudo volta. Sou um novo dia.

Sou Vento, sou solidão e suores frios. Desnudo-me e estranhamente aqueço. Torno-me Sol, suor e não quero ser visto. A vergonha trespassa a beleza da minha pele oleada e bronzeada. E sem pudor, entra aquele que não se gosta de mostrar. Eu sou. Fraco e analfabeto. Pobre e sem coroa. Cerro os dentes, e ordeno com o punho bem erguido, que se fechem os olhos dos surdos. O defeito, o feitio, misturam-se. Sinto? Ou ignoro? Faço de conta, afinal estou só. Posso crer no que quiser, posso nem sentir, posso nem chorar ou nunca mais rir. Afasto com um só sopro, o nevoeiro que toca a minha janela. Aos poucos e a medida que me visto, tenho frio. Enrolo-me novamente na pele do cordeiro. E ao som da velha cidade, sou Noite.

És Mar, és Rio, és Pandora. Procuro em ti o elixir da juventude, do consolo, da verdade. Sem desistir, procuro-te em toda parte. E tu melhor que ninguém sabe, que quando te encontrar irei continuar a procurar-te. Quero amar-te para depois ter desculpas de ter errado. Quero abraçar-te sempre que não te tenha ao meu lado. És a minha insatisfação, a minha eterna tentação. Não me esqueças, preciso de Ti. Preciso muito de Ti. És Esperança, és a única verdade na minha mentira.

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