13 junho, 2009

Bastinhas andava perdido à já algum tempo. Eram tantos os pensamentos quem nem ouviu o toque dos sinos da igreja que assinalavam as dezoito horas.

Caminhava altivo e bonacheirão, próprio de alguém que tenta manter sempre uma imagem, quando de repente, ouve um choro timido vindo daquele jardim castanho esverdeado.

Parou, como alguém o tivesse obrigado a parar, apenas para sentir a ligeira brisa que soprava contra ele, que tão bem lhe sabia naquela tarde quente.

Um suspiro vindo do chão, aguça-lhe a curiosidade. Lentamente baixa-se e senta-se na relva. Repara numa pequena folha, que está em risco de voar por causa da mesma brisa que o refrescou momentos antes, que lhe diz:

- Estou triste...

- Também eu. – Pensou.

Sem que alguém tivesse perguntado nada, aquela pequena folha continua:

-... Não quero perder-me, snif, olha para as minhas irmãs lá em cima, snif, agarradas à minha mãe.

Bastinhas pensando que estava a ficar doido, levanta ligeiramente o olhar mas não vê nada.

- Via as minhas outras irmãs irem-se embora, sem direcção, sem rumo. Sabia que mais tarde ou mais cedo, este seria também o meu destino, mas nunca quis acreditar. Pensava que iria ser sempre forte, que apenas dependia de mim própria. Aiiii... Como estava errada. E agora sozinha neste seco relvado, o vento já me empurra. Por favor ajuda-me, snif, ajuda-me...

-Mas que posso eu fazer? – Pergunta envergonhado – Faz parte do teu ser, crescer sempre amarrada a um porto, até à tua viagem, que começa este dia.

-Tenho medo... snif. – Ouve o choramingo de novo.

Sem se tentar controlar, Bastinhas começa também a choramingar.

Antes das primeiras lágrimas salgadas sairem do azul dos seus olhos, a esperança rompe-lhe o coração e afirma com emoção raramente vista nos últimos tempos.

- Tenho uma ideia! Este teu deslargar pode não ser em vão. Irei-te entregar a alguém que amo muito. Ela sabe proteger, sabe sonhar, sabe amar. Apenas não está ainda preparada, tal como tu, para um caminho. Juntas serão uma, e assim as duas nunca estarão sozinhas...

Sem o deixar terminar, a pequena folha pergunta desconfiada:

- O Quê? Vais me dar a alguém?

- Não é dar... É antes encaminhar. Assim não estarás sozinha – responde prontamente – as duas tornar-se-ão as melhores amigas, as confidentes, aquelas que eu darei mais amor.

Surpreendida diz – Sério? Vais me amar? Porquê?

Bastinhas responde sem pensar.

- Porque é o melhor que sei fazer... Amar! O amor, a única fórmula para ter força no caminho da felicidade.

Agora, imaginem uma boca numa folha. Façam-na sorrir. Daqueles sorrisos que caracteriza o principio de um novo caminho. Nessa mesma boca, pelo meio desse sorriso, saiem estas palavras:

- Então faremos um acordo. Enquanto essa mulher que amas olhar para mim, farei que ela nunca se esqueça de ti. Que se lembrará sempre dos teus lábios, do teu sorriso. Assim estaremos sempre unidos, nesse amor que tanto acreditas, que de certeza nós também iremos acreditar. Sim?

Timidamente, responde.

- Sim... Obrigado pela tua coragem, pela tua fé neste amor.

Respira fundo para ganhar ar, e continua:

-Irei por-te numa moldura. Não para te aprisionar, mas para que este amor possa ser visto eternamente. Importas-te?

-Claro que não. Assim durarei o tempo que dura a eternidade, como foi sempre o meu sonho.- Responde com rapidez.

- Ah! E como ela se chama? – Questionou com avidez.

Com ternura na sua voz grave, e desafiando os seus olhos azuis para o céu, diz:

- Eu chamo-lhe Douro. – Cora ligeiramente – Mas este não é o seu nome verdadeiro, mas é o nome que melhor a caracteriza. O elegante e sinuoso Rio Douro. E como irás ver na primeira vez que se virem, tem um sorriso maravilhoso...

Com um timbre perfeitamente calmo, comenta:

- Bem... estou mesmo ansiosa... Mas diz-me, como te chamas?

Bastinhas não esperava por esta pergunta. Assim que a ouviu estremeceu dos pés à cabeça. Calmamente colocou os braços para trás, esticou as suas pernas, e respondendo para as nuvens, diz muito baixinho, porque tinha a sensação que o mundo inteiro o estava a ouvir.

- Mar!

- Então...? Quer dizer.. que nós os três... Iremos estar mesmo juntos, não é? – Pergunta desta vez num tom agitado.

Naquela mesma posição, com o olhar fixo na mesma nunvem, responde:

- Sim! Mas por agora... tudo isto é apenas um sonho.


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