Sentado e de costas voltadas para o amanhecer, procura bruscamente algo em seu bolso.
Um pedaço de papel, um berlinde, um cigarro.
Repara como o bolso está frio, assim como aquela sala que só era aquecida de vez em quando com o sorriso da criança.
Não se importa e continua a remexer, mas agora no outro bolso.
Sabe que não irá encontrar nada, sabe também que é amado, mas isso (só) não chega.
Há breves momentos que tem vontade em levantar-se, e rumar para qualquer lado.
Mas são apenas ilusões, de uma mente educada.
A vida, a morte, é algo que já não se preocupa.
Tem agora missões mais importantes, como viver e saber morrer.
Ama as crianças.
Ama aquela alegria que elas transportam, e aquele abraço de se sentir protegido.
Ama proteger, ama ensinar, ama brincar.
Mas, daquela sala há pouco para contar.
Afinal, histórias do passado, não são bem-vindas no presente, e serão sempre mau agoiro para o futuro.
Nas mãos, as unhas pretas de tanto procurar, não conseguem acariciar.
Sente vergonha nelas, sente vergonha de estar sentado.
Porém, veste-se e perfuma-se todos os dias, pois sabe que é retrato.
E sem alma, decora o seu canto, para que um dia seja preenchido por sorrisos, por flores que não murchem e pelo som de várias vozes.
É no silêncio que está, é de costas voltadas que se mutila.
Já não é importante o calor de um corpo, nem o prazer de um orgasmo.
Volta com as mãos aos bolsos, e prepara-se para mais um anoitecer.
Está cá um frio… É tempo dele... Não é?
12 novembro, 2008
Por
Ricardo Marques

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