Durante os vinte e dois dias que ficou mudo, deliciou-se com a mestria dos aromas, dos sabores dos poetas árabes e os olhares das gaivotas em pleno voo pela cidade.
Foi um tempo de fadas, de castelos encantados, de histórias de embalar.
Na verdade, conseguiu esse silêncio muito a custa do seu adormecer. Durante esse pesado esforço, o corpo não resistia e simplesmente adormecia. Ainda hoje não sabe porque é que o fez, ou como o conseguiu, mas o que é certo, é que os dias foram passando rapidamente, e assim tornou-se fácil esta almejada conquista.
Mas que conquista? O que ganhou?
Talvez um sorriso que há muito não via. Mas… esse sorriso pertencia-lhe?
Ao 23º dia ficou só, e sucumbiu… perante o barulho da eterna e revigorante solidão.
Nem queria acreditar. Foi precisamente no momento que não tinha com quem falar, com quem sorrir e nem trocar olhares, que balbuciou aquelas 3 pequenas palavras:
- Temos duas faces.
Num primeiro instante, estranhou o tom da sua voz. Já não a conhecia. (Como é fácil esquecer, o que achamos garantido.)
Mas logo de seguida, enfureceu-se perante tamanha desgraça.E aproveitando essa fúria, disparou para todos aqueles que queriam ouvir:
-Sim! Temos sempre duas faces. Ou melhor temos duas, três, tantas quanto aqueles que conhecemos. Por cada indivíduo, por cada amigo, por cada elemento da nossa família.
Mas não estranhem… Não deixam de ser autênticos! É normal, cada um de nós ter este tipo de comportamento.
Naquele preciso momento, o som das gaivotas já vinham do lado do mar. Eram visíveis as costas dos poetas árabes, que encantados com esse som, regressavam a casa.
E os aromas…? Esses ficaram escuros, ficaram insonsos.
Sem se conter, continuava naquela gritaria desalmada:
- Oh! Que raiva! Estava tudo a correr tão bem. Porquê? Porquê?
Respirou, limpou com a manga da camisa a saliva que lhe escorria pelos lábios, e mais calmo terminou:
-Desisto… É isso mesmo, estou cansado de dizer isto mas agora é de vez, desisto. Não por ser mais fácil, mas porque já não tenho forças.
As faces de sorrisos de outros, vão-se amontoando á minha frente.
E eu sei, que quando são apenas uma, não sorriem, não ruborizam, são frígidas. Tais como a minha que há muito perdeu a cor.
Foi de tal maneira pesado este pequeno episódio, que o sono entrou de rompante por sua casa adentro, parecendo um pequeno príncipe, feio, fraco e caminhando pelo seu próprio pé, em socorro da sua bela princesa.
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Durante o sonho, visitou a sua grande amiga coleccionadora. E enquanto a esperava, leu o que alguém tinha escrito no pequeno pedaço de papel, escondido por uma pilha de livros em segunda mão:
* “Era a terceira vez que metia a mão no bolso e retirava tudo o que lá tinha para cima da mesa. Uma atrás da outra, contava notas e moedas, terminando este estranho ritual com um suspiro. 21 Libras e 12 pence.
De cada vez que as metia no bolso, para as voltar a tirar, rezava para que se tivesse enganado, e na recontagem mais 10 libras aparecessem. Chegou mesmo a contar 31 libras numa das vezes, tal foi o esforço da oração, mas assim que voltou a guardar o dinheiro, o peso do engano surgiu na sua cabeça esmagador. E voltou a tirar tudo, para tudo contar outra vez.
21 Libras e 12 pence. Mais um suspiro. Da vez que se enganou, tinha até esboçado um sorriso. O único que o seu rosto vira nesse dia, e que pouco ou nada durou.”
Dobrou o pequeno pedaço de papel amarrotado, e colocou-o da mesma forma que o encontrou.
Também ele suspirou. E acordou novamente para o silêncio.
* Este é um texto que não tem a minha autoria. Convidei a autora a publicá-lo neste blogue, e á qual, muito agradeço, por me deixar incluir esta pequena pérola no meio deste caos.

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