24 novembro, 2008

De frente para o espelho, coloca as mãos no rosto fazendo com que as rugas por breves momentos desapareçam. Roda a torneira de água quente, e repetidamente esfrega as mãos, uma na outra, olhando fixamente a água suja que fugia pelo ralo.

Novamente, olha para o espelho e desta vez limita-se a sorrir. Reparando no sorriso forçado, força outro, e outro, e de tantos sorrisos estranhos, finalmente esboça um naturalmente.

É esta imagem que fica, quando pega no seu telefone. Calmamente desliza os seus dedos naquele pequeno teclado, até que chega ao número desejado.

Demora um pouco antes de carregar na tecla verde, mas lembrando o primeiro telefonema, enche-se de coragem e abanando ao mesmo tempo com a cabeça pressiona finalmente a tecla.

Enquanto a chamada era muda, pensou naquilo que iria dizer. Ele próprio não sabia bem se seria o melhor momento para dizer tudo que lhe ia na alma, mas quando ouviu a voz do outro lado, todos os seus pensamentos desvaneceram.

-Tou? – Disse com voz confiante

Nem reparou que a voz do outro lado era a voz da operadora dizendo que o número para qual tinha ligado não estava disponível.

-Sempre posso deixar uma mensagem, é bem mais fácil. – Pensou em voz alta.

Os seus dedos responderam ao seu pensamento, desligando bruscamente a chamada.

-Sim, não seria justo. - Afirmou com uma convicção forçada.

Após esta etapa não sucedida, desliga o som ao telefone, e decide escrever um pouco antes de se ir deitar.

Como sempre, sentou-se ao fundo do quarto, de costas voltadas para a ponte e para as luzes, procurando como inspiração a obra que tinha realizado e o candeeiro de outros (felizes) tempos.

Ainda olhou para o luar, mas como o céu era negro naquela noite, e de onde se encontrava, não conseguia ver a pequena borboleta, recostou-se.

Agarrando nas palavras que ecoavam por todo o espaço, começou:

“Surpreendemos o caos com a tua ordem.

No caminho recto de um ancião, são poucos os desafios que ficarão por ultrapassar.

 Por ser recto, por não ter medo, por ser bravo e corajoso.

 Porque não tem medo do passado, por não ter vergonha do seu caminho, é simplesmente honesto, é puramente puro.

Sem segredos e sem pecados, sabe que se deixa envolver por todos aqueles que segura.

Mas eu… não sou ancião.

 Muito menos bravo e corajoso.

Por isso o meu silêncio, por isso a minha não partilha deste meu mundo desgovernado.

Sou a nova forma de Hefaistos, com o sonho de ser Ares, para conseguir alcançar o meu amor, a minha eterna liberdade.

Entrego-me aos desígnios dos Deuses, sob a forma das Sete Forças.

E tu… no meio de tanta Ordem, és o Caos surpreendido.

Não há forma de descrever, ou de mostrar o meu lamento, por (ainda) não saber ser, o teu texto, o teu conteúdo.

Não que eu o desejasse, muito menos ambicionasse, mas seria tão mais fácil…

Enquanto ganho esta nova forma, e perco minutos a pensar em ti, sinto apenas um desejo:

(Sim, confesso que rezo há muito tempo para que este se concretize.)

Por favor, sê feliz.”

Olha para o luar, e o céu continua negro.

Cantarolando as últimas palavras do seu texto, desliga todas as luzes do seu quarto.

Totalmente ás escuras, acende um cigarro, e diz em voz alta:

-Sinal verde!

Sem comentários: