
1 Minuto de silêncio.
Subia a Rua da Dona Madrugada, quando de repente (vá, confesso que já pensava nisto há algum tempo), surgiu-me a vontade de seguir o autocarro que se deslocava no sentido contrário.
O sinal ao fundo estava vermelho, e não tive mais nada, encostei à direita, tomei atenção se vinha alguém atrás, e passei o duplo contínuo sem hesitação.
Demorou, mais ou menos, uns sessenta segundos a chegar à traseira da lata amarela com ar condicionado, que devia estar ligado no quente, visto na rua estar um gelo de morrer. É sinal deste Inverno que em breve ficará florido, cheio de cores e novamente cheio de ilusões.
Enquanto o seguia pelas ruas estreitas da cidade, recordei o caminho que tinha feito até chegar aquele ponto que se vai designar por U.
Veio-me a memória todos os olhares que me tinham enviado, enquanto conduzia com o meu capuz enterrado na cabeça. Pessoas que no meio das suas ricas vidas olhavam para a distracção do momento: Eu.
Eu, que fazia como sempre, o papel do estranho, do anormal, do verdadeiro (estava frio). Este tipo de situações já é normal em mim porque, eles é que não entendem ou não querem entender, e eu estou cansado de tanto explicar ou de querer explicar.
Recordei ainda o amor…
-Ai! O amor…
O amor, mas não aquele que se fica perdidamente apaixonado, que condiciona e aprisiona a nossa vontade. É antes aquele amor que faz com que se levante o nevoeiro, que se limpe as armas, e que se saia para a rua com vontade de caminhar o seu próprio caminho.
Mas o que é certo, é que seguia um autocarro, que não tinha conseguido ler para onde ia, nem tinha piada se assim fosse, e caminhava agora sem destino.
Mas o que é que aconteceu, desde a manhã cheia de confiança até a subida da Rua da Dona Madrugada?
Ninguém sabe, nem Este que escreve esta história, quanto mais eu, que conduzia já regelado, inconsciente e cheio de vontade de chegar a casa.
Por volta das três da tarde, parei para beber um café. Na mesa ao fundo vi um casal de namorados. Ela era mais velha do que ele, supus na altura, e era recente, via-se claramente que era recente.
A dona do café olhava para mim a sorrir, e olhava para eles, e pelo canto do olho via o seu olhar reprovador. Não percebi se reprovava o meu sorriso ou a acção continua, de se fazer mostrar que se está apaixonado, do casal. Mas também não importa. Sei que assim que pus o meu pé na rua, não sorri mais.
Mais uma vez, não sei explicar, e Ele também não.
Não foi ciúme, pois não uso já há muito tempo esse tipo de disfarce. Também não foi carência, por motivos óbvios.
Mas sigo agora este autocarro, que só durante o dia é que se veste de amarelo forte, porque á noite esta cor não é tão precisa, e não penso por onde e para onde vou.
Apenas sei que estou só… sei que caminho só... e que por vontade minha não queria estar.
Mas por que é as pessoas mudam assim do nada?
Será vergonha?
Estava neste momento parado. O autocarro parou na paragem, e vejo um vulto a sair encolhido (estava frio).
-Não posso acreditar! Como é possível?
Não que tivesse fixado aquela cara. Sim! Porque não era nada de especial, mas sentia-se que tinha magia no olhar.
-É ela! A namorada do rapaz, mas está só… Aquela hora? Por onde ela andara? O rapaz já estaria em casa? Sim já deveria estar, até porque ele era mais novo que ela.
O autocarro começou a andar, e eu especado aqui a ver uma rapariga apaixonada, e bem mais nova que eu.
Ela envia um olhar furtivo para mim, e parece que me reconheceu. Seca uma lágrima. Está triste, acabou com ele? Ou ele acabou com ela? Ou será do frio?
Começa a andar mais rápido, e eu de repente percebo que posso ser comparado com o perseguidor maquiavélico, e arranco.
Mas arranco devagar, olho para o espelho retrovisor. Ela olha para mim, vá para o carro, mas era para mim.
E onde o autocarro virou á esquerda, eu viro á direita.
Perco-me nos meus pensamentos, que me levam novamente ao U.
Ainda totalmente parvo com o sucedido, estaciono a dez metros de casa e fecho o carro. Entro finalmente em casa. Dispo-me. Deito-me e penso:
“Que estranho! Eu sei que foi por acaso que nos encontrámos outra vez. Mas… e ela? Será que era destino? Se for… encontraremo-nos de novo.
Será? Até lá… espero que aquela lágrima tenha sido do frio…”
Ele sorri… Ele adormece e o sorriso não desvanece.

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