08 abril, 2009

- Que me queres dizer? O que tens para me dizer?

Acendo o último cigarro, e peço ao invisível para que esta conversa seja curta, seja curta o suficiente, para que não me deixe a ressacar cigarros.

Viro-me com toda a paciência que ainda me resta, com o meu olhar de ternura que melhor consigo ter, e repito:

- Diz lá! O que se passa?

-É que… preciso de te dizer uma coisa – diz envergonhada.

Oiço a voz abafada devido aos meus pensamentos, e também pela música que invadia aquelas paredes, e sem perceber começo a voar por caminhos antigos que já nem sabia que existiam.

Reparo que a parede caiada de branco á minha frente estava virada para Este, que não tinha qualquer marcas de musgo, nem de humidade. Estava branca, imaculada.

O apito do homem dos pássaros começa a sua serenata que tanto me deixa confuso, difuso, e com vontade de dormir. Soa-me a flauta encantada, e eu, a serpente que envenena tudo e todos, saio encantado para divertir o público, cheio de emoção por ver um tonto, que ainda se apaixona por ti, pela tua arte, pelo sorriso dos homens, pelos sonhos, por tudo e por nada.

-Estás a ouvir? – Pergunta-me num tom um pouco mais alto.

- Claro que sim… Claro que sim, apenas não entendo.

Para dizer a verdade, entendia muito bem o que me queriam dizer. As palavras usadas é que não pertenciam ao meu vocabulário. Não porque fosse numa língua estrangeira, apenas porque o ciúme, a desconfiança, já não habitam aqui há muito tempo.

Grito por ajuda, grito para que me tragam um cigarro. Um grito mudo é certo, mas mesmo que fosse daqueles gritos que todos ficam a olhar, mas que ninguém faz nada, também desta vez não tinha esperança que algo acontecesse.

Mais abaixo, num outro teclado que não este, naquele que não debita palavras, apenas sons, não existem estes dilemas. Claro que existem outros, mas não estes.

No entanto, seja qual for o teclado que os nossos dedos tocam, terá sempre o mesmo fim. O fim que nada diz, que cai mudo, que fica imaculado como o muro branco caiado na Primavera passada.

Parece que os olhares, os risos, as brincadeiras, realizados por mim, nas estações que entretanto passaram, não existiram.

Não… Afirmo, e continuarei afirmar, existiram sim! 

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