-Volto a dirigir-me a ti, depois deste tempo todo.
Venho outra vez ao teu encontro, porque o meu corpo já se ressente, do teu peso, do teu gosto, da tua incompreensão.
Volto a ti, não com vontade de sentir amargura, ou com vontade de te recriminar, pois sei que não tens culpa. Já há muito tempo que me vens dizendo, que és aquilo que queremos ser, mas sei também que tenho que parar por aqui esta nossa parceria.
Recordas-te das derrotas de outrora? Afinal, transformaram-se em vitórias. Fiz questão de as modificar, pois sabes que não gosto de perder. Passo a passo, noite após noite, fui conquistando novamente o território que julgava ter perdido, até não o querer de novo e o abandonar definitivamente.
Lembras-te das folhas que caíam das árvores? É, nasceram outras. E não adianta querer embelezar esta queda, é poesia sem ouvintes, é cor para daltónicos.
Mas, hoje estou aqui à tua frente, não para me despedir, que acho que nunca viverei sem ti. É antes um tributo, uma confissão.
Não pretendo ser confuso, difuso. Quero ser claro no raciocínio, que sempre me caracterizou.
Bom… o que me traz cá é para te dizer que, voltei às derrotas. Sim, confesso que perdi. E não, não me sinto envergonhado, conheces-me bem demais… sabes que não a tenho.
E desta vez, vou mesmo deixar ser uma derrota, vou desistir. Não quero voltar a conquistar um pomar que nunca foi meu.
Todas as outras derrotas que transformei metodicamente em vitórias, não me seduziram. Por isso transforma-as em derrotas, não concordas?
Assim, vou deixar estar tal e qual como está… e ver o que acontece. Talvez, e pela eterna lógica, se transforme em vitória.
Reafirmo, não quero ser confuso, difuso. Pelo contrário, quero ser simples, não quero mais pensar em círculos, e ser o centro deles. Quero estar fora deles, fora do objectivo central.
E não vou pedir mais a tua ajuda. Como te disse, tenho o corpo cansado de ti. E para veres a minha determinação, falo para ti, mas não te toco.
Vou-me embora, e antes que digas alguma coisa, deixo-te um recado do Eugénio.
Ele pediu-me, enquanto esperava eternamente que ele passasse na sua passadeira real (Sabes como ele é…), que te alertasse que por mais que as pessoas se entreguem a tua mercê, na verdade, só existes por algumas horas. Não sei o que ele quer dizer com isto, mas… está dito.
Fecho a porta com um ligeiro sorriso, e agora que ele não me ouve, falo para vocês:
-Gostava de vos contar novas histórias que tenho ouvido. De portas mágicas, do Eu, do Tu, mas vou ter que me desabituar disso. Prefiro que não me oiçam, por três razões:
Primeiro, para que não me julguem, mal ou bem, não importa, apenas não me julguem.
Segundo, porque são histórias frias, sem sabor, sem encanto, sem Amor.
Por último, porque sinto que vocês nunca querem ouvir. Por isso, hoje, vou-vos fazer a vontade.

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