16 julho, 2009

Trim! Trim! – Ninguem responde. Insisto.

Trimm! Trimmmm! -Já impaciente.

Olho para as janelas das casas iluminadas. Afasto uma mosca que teimosamente tenta pousar no meu pé direito. Vindo lá de dentro do prédio, oiço a voz de um homem a gritar, mas não entendo o que diz. Continuo a olhar, à espera de alguma diversão. Mas não há. Não sei se é porque já é tarde, ou simplesmente porque, hoje não é o dia para diversões.

O homem continua a gritar, e eu continuo a não querer ouvir.

A mosca continua a querer pousar, e eu continuo a não a fazer desistir.

Sento-me, estava decidido a esperar. Sinto a rua, deserta, escura e abafada, a ter um esgar de dor ao ver-me ali sentado, com os pés de um lado para outro, a tirar-lhe o sossego. Mas não me importo. As ruas servem para serem usadas e desta vez sei que não sou um fardo.

O homem parou de gritar e eu agora quero ouvir.

A mosca prepara-se para parar e eu rogo para ela insistir.

Neste silêncio, acende-se a luz das escadas do prédio mesmo em frente. Espero. Penso como será, o casal, ou a pessoa, ou a família que irá sair, que irá interromper a monotonia. Não formo imagens, apenas consigo ver vultos, prefiro pensar quantos serão. 3, é a minha aposta. Ou talvez apenas 1. Devem morar nos últimos andares pois estão a demorar. Olho para cima para ver se vejo movimento. Alguém que venha à janela despedir-se dos outros 3... Ou de apenas 1. Não, tenho a certeza que são 3. Espero.

O homem parou mesmo de gritar e eu já não me lembro porque queria ouvir.

A mosca há muito que decidiu voar e eu acredito que voltará a vir.

O tilintar das chaves faz-se ouvir. Decido levantar-me. Não sei se para ver melhor quem descia, ou para me verem melhor quando descessem. Também não importa, faz sentido ambos os casos. Ao levantar-me reparo que provoco movimento. Algum animal que para ali andava, assustou-se, e escapuliu-se para a escuridão. Tento ver primeiro para onde foi, e depois, tentando recordar o som, tento ver de onde veio. Abano a cabeça. Não consigo descobrir. A luz das escadas apaga-se.

Agora é que o homem podia gritar, porque agora queria mesmo ouvir.

A mosca deve ter encontrado outro para chatear, e eu penso que um dia outra voltará vir.

Passado alguns segundos, volta de novo a luz. Deve ser um velhote, ou uma velhota a vir por o lixo na rua. Imaginei-a, sim agora é só uma velhota, às escuras nas escadas. Deve ter tido a paciência de tentar encontrar o botão da luz. Provavelmente, faz este bailado todos os dias. Provavelmente é unico momento do dia que sai de casa. E quer fazer com que este momento nunca acabe, pois sabe que amanhã, poderá não o fazer. Sento-me de novo. Sinto-me impaciente.

Impaciente porque o homem já não grita. Impaciente porque eu até queria ouvir.

Impaciente porque a mosca já não acredita. Impaciente porque eu até ia deixá-la vir.

A porta por trás de mim abre-se, acompanhado com o som do trinco. Encostado, sobressalto, mas nada que me faça assustar. Levanto-me, viro as costas á luz do prédio em frente. Entro no vão das escadas, sinto que está mais fresco. Suavemente fecho a porta do prédio onde estou, mas estou com o olho no prédio da frente. Ainda nada. Espero?

Espero que o homem volte a gritar. Espero que na próxima vez queira logo ouvir.

Espero que a mosca nunca vá desistir. Espero que eu na próxima vez a queira logo sentir.

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