15 dezembro, 2009

2 minutos para nascer um novo dia e mesmo assim acendeu as luzes do quarto.

Queria antecipar o nascer das suas sombras. Queria duplicá-las. Controlá-las.

- Afinal, o que querem de mim? – Sussurou. – Estou aqui. Ainda estou aqui.

Baixando o seu olhar, um gesto habitual de quando está só, conta os pedaços de papel já caídos. Palavras escritas por uma eterna solidão, teimosamente enraizada, teimosamente idolatrada.

-Não adianta querem-me. Eu não me quero. Nunca me quis. Porque é que vocês teimam em me querer? Não vos posso dar nada, pois não tenho nada. Não guardo nada. Uso e abuso e não guardo o melhor para o fim.

Há muito tempo tinha decidido partir. Há pouco tempo acreditou que era capaz de partir. Sentia-se, quem estava ao pé dele, que transpirava confiança. E tantos estiveram ao pé dele. Estariam esses tantos enganados?

Eu não posso dizer que sou seu amigo, pois ele diz que não os tem. Mas posso dizer que o conheço bem. Foram muitos anos de monólogos, pela noite fora. Muitos sentimentos que saiam da sua carne crua. Mas quente, muito quente.

-E mais, não sou aquilo que procuram. Fingem que sim, porque é mais fácil. – Voltando-se directamente para o sol que tardava em nascer. – Sim, optam pelo mais fácil, e porquê? Apenas porque não gostam de procurar. – Sem sequer fazer um pausa, continua. – Já eu, amo loucamente a procura. Como nos podemos entender? Como posso eu, me fazer entender?

Mas mesmo conhecendo-o muito bem, não posso dizer que sou seu confidente. Pois quando estou com ele, é raro dialogar-mos sobre si. Prefere sempre falar de mim, mas só quando está comigo, é claro. Pois basta-me sair da sua frente, e esquece simplesmente que existo. Para voltarmos a falar, a estar, tem que sempre partir de mim. Se me chateio?

-Ah! Finalmente apareceste. Já posso então ir embora? Devo desligar as luzes? Tomas conta agora da nossa claridade? – Por cada pergunta que fazia ao Astro Rei, dava sempre um ou dois segundos de intervalo, parecendo que estava à espera de uma resposta. – Ah! Aí estás! Forte e confiante como sempre. Gosto de ti assim...

E ficou por ali, veio deitar-se junto a mim. E assim que encostou a sua cabeça na almofada, suspirou umas duas ou três vezes, fechando os olhos. Eu mantive-me imóvel, não fosse ele perceber que estava acordado. Não, não tenho medo dele. Não, não me chateio que ele se esqueça de mim. Eu já percebi é que gosto dele assim...

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