22 outubro, 2009

- Já não me lembro o quanto gosto de ti.

- Como não te lembras? Ainda ontem me dizias que me amavas.

- Juro que não me lembro. Ontem foi diferente. Sabes que às vezes dizemos coisas, conforme a situação só para empolgarmos ainda mais o que estamos a fazer.

- Disseste que me amavas... Foi para empolgar a situação?

- Claro que sim! Contigo, isso não acontece?

- Claro que não! Estou farto de te dizer que eu, sou genuino em tudo o que faço. Tudo o que faço e que digo.

- Ah! Não sejas assim tão certo de ti próprio. Um dia, vais-te arrepender de muitas coisas de teres dito e feito "genuinamente".

Eugénio voltou-lhe as costas. Ainda tinha um pedaço de pão na sua mão direita, e nos seus dedos tinha a manteiga que sobrava da côdea.

- Vais-te embora?

- Claro que não!

Depois de fechar a porta com todo o cuidado, não que não quisesse que Leonor ouvisse, apenas não queria sair como todos aqueles que saiem depois de uma discussão de amor, ainda tentou ouvir se tinha havido algum movimento. Mas não. Por isso, continuou o seu destino. Desceu as escadas em vez de o elevador, afinal eram só dois andares, e quando chegou à porta do prédio, pensou naquelas palavras: - Um dia, vais-te arrepender de muitas coisas de teres dito e feito "genuinamente" . Mas afinal o que é que ela queria dizer com isso? De teres dito e feito "genuinamente"? Queria ela, que ele começasse a ser falso? Não entendia, e quando deu por ele novamente, estava parado à frente de uma passadeira. Queria voltar para trás, mas o corpo não respondia. Tentou de novo, mas desta vez queria andar para frente. Também nada. Estava paralisado. Estava "genuinamente" paralizado. Assustado, reparou que todos os carros que passavam àquela hora, paravam para lhe dar passagem. Na verdade, não era só ele que estava paralizado, como ainda conseguia paralizar aqueles que lhe rodeavam. Por pouco tempo é certo, porque quando os condutores viam que ele não se mexia, arrancavam com a acelerador a fundo, chamando-o de maluco, e outros nomes que não vale a pena referir. Como ele não se mexia, nem sequer os olhos, não dava qualquer sinal de se importar. E na verdade não se importava mesmo. Além do mais gostou da sensação de se sentir gente. Por pouco tempo é certo, mas sentiu-se gente. E o pior é que há muito tempo que não tinha aquela sensação.

Passado não sabe quanto tempo, e depois de aquela cena se repetir várias vezes, conseguiu dar um passo para trás, e depois outro, e mais outro, e ainda mais outro, até embater na mesma porta de onde tinha saído. Instintivamente deu um passo em frente e nunca mais parou.

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