15 novembro, 2007

Neste vazio transparente,

Com as mãos em concha, segura com cuidado, a terra castanha.

Tinha acabado de chegar aquela parte em que só as estrelas conseguem tocar, mas nem sentiu.

Caminhou toda a noite e os pensamentos invadiam a sua minúscula caixa cheia de sementes, que sonhava plantar.

Planeado estava, todo este caminho, e de querer olhar e tocar no âmago, deixou que todas as pegadas desaparecessem.

O Homem que deixa tudo para trás, e nem sequer olha para o que deixou, não leva esperança.

Leva a amargura do passado e com a certeza mostrada num passo firme olha para recompensa que colheu. (Um forçar de um sorriso, patético e inocente)

Carrega as sementes com cuidado, pois naquelas mãos está todo um futuro.

Todo um horizonte que nunca poderá contrariar.

São tolos aqueles que não se importam com os outros, que vivem exclusivamente para si próprios.

Aqueles que encontram um tesouro e não tem ninguém para partilhar.

O pão mata a fome, mas não alimenta.

A frieza faz o Homem avançar, mas não o faz sonhar.

Fecha os olhos, ouve os acordes dos gritos, das vozes inquietantes que têm a coragem de dizer:

-Tem calma, tens tempo...

O tempo que se consome é semelhante á agua que colocamos dentro de um copo.

Se não a bebermos irá por certo desaparecer…

Pois existimos no mesmo círculo, no mesmo espaço e nós apenas somos a solidão de um ponto ao lado de outro ponto que nos acabará por nos unir.

E o silêncio? Onde está?

Metidos neste molhe de pessoas, teimamos sempre a cometer o mesmo erro.

Não o respeitamos, não existe o vazio cheio de cor, de alegria, de tudo que possamos imaginar.

Não queremos estar verdadeiramente sós.

Há quem não queira ver este vazio, pois acredita que só irá ver desilusão. (Com sotaque)

Desiludimo-nos porque nos iludimos, disse um sábio… mas há momentos em que desejamos que a verdade seja apenas verdade e não mais do que isso.

Iludirmo-nos com a verdade, é aceitarmos que estamos dentro deste círculo majestoso. Um balão que a criança leva sorrindo, cheio por um constante sopro.

O vazio serve para vermos que o copo precisa de ser novamente cheio, com erros, com sorrisos, com arte.

A arte de amar, de beber, de chorar, de cantar…ou simplesmente de ouvir.

Uma grande parte de nós é água.

Sim! Uma grande parte de nós é água.

E é esta água que irá regar, a terra castanha que carregas nas tuas mãos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Dei um dia as boas vindas a um belo Orador...
Hoje despeço-me de um belíssimo Escritor, que nunca teria encontrado as palavras, se não se tivesse cruzado com o vazio. O vazio que o assusta, mas que enche os seus dias com as cores da Descoberta. Se ao menos ele conseguisse ver isso.....