Estou proximo de ti. Estou tão proximo que já nem sinto o meu corpo. E não quero isso. Quero ter, o que tive ontem. Ter o olhar, o sorriso, o ouvir do meu nome, que me espantou após tanto tempo de chuvas e trovoadas. Assim como as tempestades, sei que não vai durar. Sei que foi só para ver se o coração ainda conseguia bater sozinho, de uma forma incontrolável, sem querer fazer ou dizer mais nada. E sinceramente gostei. Gostei mesmo. Não que me fizesse sentir mais vivo, ou mais alegre. Mas de repente fui de novo criança. Fui de novo aquele, que não vê ou sente mais nada, a não ser a imagem que está a frente e o toque no que toco. Ahh...! (Desta vez este suspiro é diferente. É bom... é muito bom.) As mãos que tremem poderiam anunciar a paixão por alguém, mas não. Senti-me apenas de novo apaixonado pela vida, pelo acaso, pela morte, pela certeza. E como sempre, estas palavras, porque são só palavras, nada descrevem como o meu coração começou a bater mais rápido. Bastante mais rápido para ser sincero. Aquele olhar incerto, que contrasta com os olhares dos passáros nocturnos, avídos de luz. Olhares famintos à procura das suas presas. Não, aquele olhar não quer nada. Não quer nada, porque tem à sua frente tudo aquilo que precisa, tudo que é necessário para naquele momento estar vivo, estar consciente. E no meio do turbilhão de emoções, gritos, copos e gemidos, é genuino. Mas como tudo o que é raro não nos pode pertencer, virei-lhe as costas. Mas apenas por poucos segundos. Tive que voltar a vê-lo, para me certificar que não tinha perdido o juizo. E não... Ainda estava lá a olhar para mim. Repetimos a cena. Voltei-me de novo, mas agora dizendo adeus. Pobre ingenuidade, pobre de mim. Sem me aperceber, estavámos de novo frente a frente. Tento uma última vez, até porque me chamavas. Mas desta vez, saio devagar sem lhe virar as costas, deixando que a multidão nos cubra de sombras e de banalidades. Pelas ruas das luzes amarelas, vagueei só, até me encontrar verdadeiramente só. Recordei a carta que um dia encontrei no chão sujo de um parque perto de casa. Ainda não te tinha falado nela, eu sei, mas o duque de ouros terá mesmo que pertencer àquele olhar. Felizmente hoje, especialmente hoje, irá haver um Amanhã.
08 setembro, 2009
Por
Ricardo Marques

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