"Olá boa noite, como estão?" – Comecei o monólogo. "É verdade. Tanto silêncio e hoje decidi falar. E porque hoje? " - Engulo em seco. "Porque hoje, talvez seja o dia, ou melhor a noite, em que todos saiem à rua para se divertirem. " – Sorrio. " Ou talvez, seja a noite em que adormecem cedo, para que o dia de amanhã chegue rápido... Não interessa. Não me interessa se hoje é a noite perfeita ou não para quebrar o silêncio." – Acendo um cigarro. Olho-me ao espelho. E reparo que que fiquei um segundo mais velho. Mais atento. Mais indiferente, talvez mais experiente. Volto-me de costas para esta imagem que ja desisti de tentar conhecer e continuo. – " Já tentei ser terra. Já tentei ser corpo. Já tentei ser jogo. E não o que irei vir a ser. Como repararam, até já tentei o silêncio. " – Olho para o lado, sem focar nada em especial. "E não sei. Não sei o que irei vir a ser. Estou a repetir-me?" – Espero pela resposta. Mas tudo isto é um monólogo. Todos sabem, que depois do silêncio, ninguém estará lá para me ouvir. Lentamente, como quem quer ter prazer, passo a minha mão pelo rosto. Depois deixo os dedos encontrarem os lábios, até que se cansem. ... " Porquê eu? Porque é que eu continuo nesta procura de algo que já não existe? – " Procuro esconder as mãos. Isto de falar em público, tem muito que se lhe diga. Inspiro para ganhar coragem. " Uma coisa é certa. Não quero perder a noção do tempo. Aquele segundo que tive no espelho, ficará para sempre guardado na minha memória. São muitos segundos, eu sei. Mas nesta floresta negra, em que os lobos andam sozinhos, eles são obrigados a decorar todos os caminhos. Todas as tocas. Todas as noites que passam sem comer. E como não podia deixar de ser, todos os repastos que um dia já tiveram. Mas de vez em quando, a lua fica cheia. E de nada serve os dias que já passaram. Eles, uivam sem perdão. Uivam para que um dia a lua fique tão farta de os ouvir, que deixe de aparecer." – Ganho fôlego. Inspirando novamente... – " Oh, gente que se deixa apaixonar! Tragam essa forma de viver para o meio desta floresta. Façam um circulo gigante, se possível numa forma de coração, para que a lua possa conseguir sorrir. Para que assim ela nunca consiga desistir." – Sorrio com o verso criado. Aproveito este sorriso, e tento ver-me outra vez no espelho. Mas desta vez... Estou longe. Ainda tento congelá-lo, mas assim que chego, o sorriso está desfeito. Mais um segundo. Mais silêncio. Mais... Nada! "Play...
10 outubro, 2009
Por
Ricardo Marques

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