06 outubro, 2010

Se havia alguem corajoso, esse alguém era o João.

Disposto a qualquer disputa, começava sempre o dia, a olhar a sua própria imagem no velho e grande espelho herdado da sua querida avó. Este espelho, foi colocado estratégicamente, do milimetro ao centimetro, de maneira a que quando João se levantasse da cama, pudesse visualizar, criticar, julgar, o seu próprio corpo. Um corpo franzino, sem robustez, sem, como ele costuma dizer, "sem ponta por onde se pegue".

Refeito do embate matinal, avançava prontamente para o seu inimigo. Todos os dias, fascinava-se com a sua própria imagem que ia aumentado, assim que se ia chegando, chegando e colando, testa com testa, nariz com nariz. Neste momento fechava os olhos e dizia baixinho, " Promete que um dia, alguém escreverá o teu nome numa árvore". Como nunca tinha qualquer resposta, abria os olhos, e ainda com alguma dificuldade para voltar a focar qualquer imagem, entretia-se fazendo caretas, tornando aquela imagem do João ainda mais feia do que na realidade.

Passado o carnaval matinal, ia de imediato para outro espelho, este mais pequeno, mais singelo, até parecia que reflectia um outro João. Talvez porque este espelho tinha sido comprado num hipermercado. Tinha-o visto numa promoçao, num folheto que se encontrava no banco do comboio, e por coincidencia, aquele era o último dia daquela excelente oportunidade. Mais impressionante ainda foi, quando levantou a cabeça, e olhou para a janela, o hipermercado estava bem a sua frente. Num impulso, saiu imediatamente nessa estação. Nesse dia chegou mais tarde a casa, mas tinha valido a pena, tinha comprado um outro espelho. Talvez com a ideia, ou com a esperança, de reflectir um novo João.

Curiosamente neste espelho, nunca dava demasiada importancia aos pormenores da sua cara, fazia toda a sua higiene diária de olhos postos no espelho, mas este tempo passava, passava e nunca se lembrava de nada. A sua actividade cerebral voltava somente a manifestar-se, quando ouvia as portas do comboio a fechar. Todos os dias, procurava ver se reconhecia alguém de outros dias, de outras viagens. Na verdade, queria ter um companheiro de viagem. Ele próprio reconhecia isso mesmo. Houve até uma vez, que a sua primeira frase do dia foi, "Promete que um dia, encontrarás um companheiro de viagem". Assim, e após desse descuido, decidiu procurar diáriamente pessoas, caras, para que podesse de alguma forma simular, a sua solidão.

Desde os seus 23 anos, após a morte da sua querida avó, decidiu enfrentar a vida como ela é. Sem medos, sem o "encolher de ombros". Sabia que não tinha nascido com sorte, sabia também que não tinha tido sorte no decorrer da sua vida, mas não tinha deixado de tentar encontrar o seu próprio caminho. Para provar isso, entrou em vários projectos na sua vida, representou vários papeis, mudou várias vezes de carreira. E agora com 38 anos, preparava-se para iniciar um novo desafio. O desafio de ser o João do Espelho Pequeno.

Nas manhãs seguintes áquele encontro, deixou de haver Carnaval, deixou crescer a barba. E caminhou. Caminhou até as suas pernas não aguentarem mais, e depois pôs-se a boleia. E quando pela primeira vez viu um carro a parar... o seu coração tambem acompanhou esse movimento. Quando o carro e o seu coração pararam, num segundo houve esperança, e de uma forma calma, tranquila, foi de encontro ao seu futuro.

Se há alguém corajoso, esse alguém é o João.

Sem comentários: